Entrevista: Lars von Trier comenta seu polêmico filme “Anticristo”

Semana passada chegou ao Brasil o terror psicológico Anticristo, novo trabalho do surpreendente diretor Lars von Trier, considerado o filme mais controverso do ano. Escrito enquanto o diretor enfrentava uma forte depressão, o filme conta com Willem Dafoe (Homem-Aranha) e Charlotte Gainsbourg (Eu Não Estou Lá) como um casal que tenta superar a morte do filho em uma cabana no meio de uma floresta. No entanto logo o drama sobre se recuperar de uma grande perda se torna puro terror quando as feridas dos personagens são abertas resultando em fortes cenas de sexo, ultraviolência, tortura psicológica com direito até a uma raposa falante.
O Rotten Tomatoes descreveu o filme como “bizarro, poderoso e audacioso, difícil de engolir mais ainda mais difícil de ignorar”. Já Lars von Trier, responsável pelos intrigantes Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), afirmou que Anticristo é o filme mais importante de sua carreira. Confira abaixo a entrevista que o diretor deu ao Rotten Tomatoes, além da entrevista concedida também a Empire, em que o diretor comenta sobre o processo criativo do filme:
RT: É um grande nome para um filme de terror….
Lars von Trier: Sempre achei que era bom com nomes de filmes. Não é exatamente um filme de terror, mas também não é exatamente um filme religioso. Acho que é um bom nome. Não sei! Mas acho que é.
RT: Você esperava que Anticristo fosse tão controverso?
LvT: Não, não mesmo. Mas isso não me incomoda. Eu podia ver em Cannes aqueles que já tinham decidido não gostar ou gostar do filme mesmo antes de assisti-lo. Mas são poucos os países que irão censurá-lo. Na Europa, o único país que vai censurar o filme será a Alemanha. Na América não sabemos ainda. Mas não é um grande problema para mim.
RT: Como você conseguiu persuadir Willem Dafoe a estrelar o filme?
LvT: No começo, queríamos pessoas mais jovens. Mas Willem me enviou uma carta me perguntando se eu tinha algum trabalho para ele. Eu disse “Claro!” Ele ficou um pouco relutante no começo, mas minha esposa fez algo brilhante. Ela disse “Não ouse recusar esse papel!” E isso não é algo que se diga a Willem! Com isso ele aceitou fazer o filme.
RT: É verdade que Eva Green (007 – Cassino Royale) queria fazer o papel da mulher no filme?
LvT: Passamos muito tempo procurando pelo papel feminino. E sim, Eva Green queria fazer o filme, e chegamos muito perto de ter a Bond girl! Tivemos muitas discussões, mas os agentes dela definitivamente não queriam que ela fizesse esse papel. Perdemos dois meses com isso. Fiquei revoltado, porque não dá para esperar dois meses assim.
RT: E como você conseguiu Charlotte Gainsbourg?
LvT: Charlotte chegou pra mim e disse “Estou louca para pegar esse papel, não importa o que eu precise fazer!” Acho que foi uma decisão que ela fez muito cedo e se agarrou a ela até conseguir. Não tivemos o menor problema.
RT: Ela ficou preocupada com as cenas de nudez e violência?
LvT: Depois de ler o roteiro, nós discutimos como aquelas cenas seriam feitas, e nunca houve qualquer dúvida da parte dela. E isso foi fantástico! E estou muito, muito feliz que ela tenha recebido o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. Foi uma performance corajosa, principalmente porque ela é muito, muito tímida.
RT: E quanto as cenas hardcore de sexo?
LvT: Usamos atores pornôs. De fato, isso foi muito engraçado, naquela cena em que ela masturba ele e o sangue aparece, eles continuaram fazendo a cena. Não consegui entender. Aí alguém me disse que em filmes pornôs os atores não podem parar até que o diretor mande! O pobre infeliz foi incrível nessa cena…
RT: Você se preocupa com o fato de que o público possa ficar anestesiado com tanta violência?
LvT: Ah, sim, com certeza. Mas se você pensar em todas essas imagens que vemos na vida real, acho que dá para mostrar qualquer coisa. Mesmo assim parece que há um limite quando se trata de ficção. É bem estranho.
RT: Você passou por um período de depressão há algum tempo. Como isso te afetou nesse filme?
LvT: Eu me senti como um velho que foi ajudado pelos atores durante o filme. Não estava no meu melhor, e não conseguia apreciar todas as coisas que normalmente eu gosto de fazer. Não conseguia dirigir e segurar uma câmera ao mesmo tempo. Não tinha a capacidade mental para isso. Já faço terapia há muitos anos.
RT: As pessoas estão te acusando de misoginia de novo. Você já perguntou a sua esposa o que ela acha do filme?
LvT: Não, mas normalmente não pergunto. Não acredito nela. Há muito tempo ela me disse “Porque você está tão deprimido? Você fez o melhor filme da sua carreira!” e eu respondi “Mas você ainda nem o viu”, e ela “Eu sei disso, mas eu tenho certeza”. Fala sério! Como posso confiar na opinião dela? Ela é sempre muito, muito positiva com relação a tudo que eu faço. Amo muito a minha esposa, ela é fantástica pois consegue apoiar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Mas eu não confio nela nesse sentido!
RT: Você acha que as pessoas vão detestar o filme?
LvT: Não penso nisso. Sempre me considero o próprio público. Que tipo de filme eu gosto de ver? Como gosto de ser provocado? Algumas pessoas dividem esse ponto de vista comigo, outras não. Graças a Deus que algumas pessoas pensam como eu! Essa ideia de Hollywood de que é possível atingir um público maior, e por isso saem fazendo testes com as pessoas para saber quando elas riem durante o filme, isso seria impossível pra mim.
RT: Você ficou chateado quando os críticos de Cannes riram da raposa falante
LvT: Não estava na sala quando eles passaram o filme. Mas acho que posso perceber a diferença de um riso como aquele para a risada de alguém que já se predispôs a odiar o filme desde o começo.
RT: Mas a raposa pretendia ser uma piada?
LvT: Não, ela vem de uma jornada xamânica que eu fiz. Não no sentido de entrar em um avião! Sim, eu ainda tenho medo disso, mas no sentido de ter um tambor repetindo uma batida, e você entrando em um transe que te leva a esse mundo paralelo. E lá eu conversei com essa raposa que ordenou ganhar uma fala no filme.
RT: Ela disse mais alguma coisa?
LvT: Na verdade a primeira raposa que encontrei foi uma raposa vermelha. E logo ela começou a se despedaçar. Depois disso, encontrei um monte de outras raposas. Raposas prateadas com pequenos filhotes. E essas me disseram “Nunca confie na primeira raposa que você conheceu”. Foi interessante.
RT: O filme fala sobre uma jornada xamânica?
LvT: Isso seria muito legal, uma jornada xamânica é algo muito pessoal. Não tem nada de religioso nela, mas é muito boa.
RT: Qual é o seu animal xamânico?
LvT: Uma lontra. Pois é! Não é algo que você possa decidir. Apenas aparece.
RT: O que você fará agora?
LvT: Não sei. Não faço a menor ideia. Nem penso em fazer outro filme no momento. Não tenho nada em mente. Gosto de jardinagem. Costumo sentar no meu jardim, é sempre muito tranquilo. Sou um homem da natureza. Passo o maior tempo possível na natureza. É o lugar onde me sinto mais seguro.
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Empire: De onde veio a ideia para Anticristo?
Lars von Trier: É uma longa história, mas começou com um lago tradicional no meio da floresta. Sabe, muitas pessoas tem a pintura de um veado pendurada em cima do sofá, e se alguém me perguntasse onde eu me sinto mais protegido no mundo, iria te dizer que é num lugar como aquele do quadro. Lá é onde eu acho que qualquer um de nós se sentiria protegido e bom. Depois eu vi esse documentário sobre florestas na Europa, e passei a acreditar que lugares como esses, com essa imensa diversidade natural, são dominados por matança e sofrimento porque todas as espécies querem viver lá. Achei isso muito interessante, principalmente se você pensar em fazendas e zoológicos, onde essa luta não é tão grande pois os animais estão lá porque nós queremos que eles estejam. Não existe o mesmo caos da natureza. Achei que essas duas coisas colocadas juntas poderiam resultar em algo interessante.
E: E como surgiu a ideia dos personagens e de colocá-los na floresta enquanto lutavam para superar a perda do filho?
LvT: Sempre quis fazer um filme com apenas dois personagens, o que gera um certo desafio. E depois, queria fazer um filme sobre coisas que eu realmente conheço, e isso é a ansiedade, e depois foi natural colocar os dois em uma situação em que um deles estava em terapia.
E: Você disse que fazia terapia para controlar sua própria depressão. Você acha que o filme foi uma experiência catártica?
LvT: Trabalhei muitos dias no filme, pensando em como gravar essas coisas que estavam no papel. Naquele momento eu tinha que fazer aquilo, e o processo de filmagem foi excelente por causa disso. Antes eu ficava deitado na cama olhando para a parede, com o filme tive que ficar de pé…
E: Você escreveu enquanto passava por esse período sombrio, ou se sentiu meio “desligado” artisticamente?
LvT: No começo me senti desligado, mas depois que se começa a fazer terapia — que me ajudou com um monte de coisas —, você começa a ter ideias, uma ou duas durante o dia, que realmente te agradam, aí se começa a construir algo a partir disso. Traduzindo, significa que eu chegava a escrever dez páginas por dia, por aí.
E: E quanto tempo você demorou para escrever o roteiro?
LvT: Algo em torno de um ou dois meses.
E: O personagem de William foi baseado em algum terapeuta que você conheceu?
LvT: Não, estou sendo bem sarcástico com a terapia nesse filme, mas acho que eu reagiria da mesma forma naquela situação. Uma das ideias é que você precisa permanecer no estado de ansiedade para investigá-la, mas às vezes isso é impossível, sendo muito fácil dizer, mas muito difícil para um paciente suportar fazer.
E: Como foi trabalhar com William e Charlotte? Eles foram receptivos ao seu método ou demorou para que eles chegassem naquele estado de entrega?
LvT: Preciso dizer que sou muito sortudo de ter os dois nesse filme, porque eu não estava exatamente em um bom estado naquela época, e eles me ajudaram muito.
E: Preciso te perguntar sobre a raposa falante. Qual era o objetivo por trás disso? É bem diferente do restante do filme; é meio esquisito.
LvT: É mesmo. Não pensei muito nisso na época. Todos esses animais são imagens do meu próprio passado. Você faz algumas viagens fantásticas para um mundo paralelo e fala com animais, e por isso achei que ela precisava falar. Ok, me desculpe, mas não fui realmente responsável por isso.
E: Não, funciona de alguma maneira no filme. Obviamente, uma das coisas mais lembradas do filme é a cena explícita de mutilação genital. Por que você sentiu que a dor da personagem deveria culminar em algo assim? Houve alguma razão particular por trás disso?
LvT: Mutilação? Uma das coisas que acontecem durante esse tipo de terapia são danos provocados em si mesmo, e é sobre isso que estou falando naquela cena, sobre o que acontece quando o medo toma conta de tudo e muda a realidade.
E: Você faz filmes controversos de propósito ou eles simplesmente surgem do nada?
LvT: Acho que surgem do nada porque é assim que eu sou, mas acho também que o que eu realmente estou fazendo em um filme como esse é me colocando no lugar certo, pois em muitos filmes trabalhei com pontos de vista que não eram meus.
E: E o que você está fazendo no momento?
LvT: Absolutamente nada! Tenho um jardim com vegetais, e é nisso que estou trabalhando, em batatas, alfaces e todo o tipo de coisa desse gênero.
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Muito boa essa entrevista, parabéns marcia!!! Eu já tinha ouvido falar do filme e até estou curioso para ver, principalmente porque recebeu várias críticas bastante positivas.
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Marcia Silva respondeu:
Setembro 9th, 2009 às 19:36
Eu tb estou louca p/ ver esse filme… mas ainda não sobrou tempo e nem sei se está em cartaz aqui em Curitiba =)
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Carla respondeu:
Setembro 18th, 2009 às 14:29
Filme u uó!
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[...] Apesar de ter anunciado não ter planos para um novo filme em uma entrevista recente, Lars von Trier (Anticristo) já tem um novo projeto engatilhado: Melancholia. Descrito como um [...]